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Crease, a system of bookshelves and furniture

Este e-mail contará uma história bem diferente das anteriores: não é a respeito de fotografias, mas sobre minha parceria com a Vinco, a marca de estantes e mobiliário desenvolvida pelo arquiteto Denis Joelsons. Alguns meses atrás, em meio às chuvas de verão e intermináveis adiamentos de sessões fotográficas, eu propus — meio em tom de brincadeira, meio sério — fazer seu site.

A Vinco é um sistema em desenvolvimento há dez anos pelo Denis, a partir da leitura, adaptação e melhorias de sistemas como Vitsœ, Moebel e semelhantes para atender as necessidades e dimensões dos espaços brasileiros. Com trilhos verticais, distantes 70cm ou 100cm um do outro, peças como prateleiras, gaveteiros, painéis e afins podem ser dispostos em infinitas configurações. Se precisar mudar de local, basta soltar e reconfigurar numa outra parede. Muito prático para quem vive de aluguel, ou sabe que um ambiente será repensado no futuro.

Sistema Vinco: quatro trilhos, três gaveteiros, onze prateleiras de 100cm de largura, quatro de 70cm. Arandela no canto esquerdo.

Pronto, fiz meu pitch de vendedor, mas vou voltar um pouco no tempo para contar como cheguei aqui…

Desde os 8 anos eu fui uma pessoa ligada à tecnologia. Em 1992 meu pai comprou um computador para casa; seis meses depois eu entendia mais que ele sobre o rudimentar PC 286. Logo em seguida entrei numa proto-Internet-meio-BBS-meio-biblioteca. Não tardou para eu ser engolido pelas AOLs, WWWs, IRCs, ICQs da vida. Montava e arrumava os computadores da família; mas nunca me interessei a sério por programação. Gostava mais de entender sistemas como um todo do que esmiuçar uma função. Meu primeiro vestibular foi para Ciências da Computação, mas no cursinho mudei de rota. Urbanismo me parecia muito mais interessante do que máquinas e matemática, e assim segui para arquitetura. A fotografia me distanciou ainda mais daquele caminho original, e sou imensamente feliz por essa correção de rota. Mas nunca abandonei a imersão neófita na tecnologia.

Acompanho as inovações em AIs e LLMs há alguns anos (criei uma série de quadrinhos sobre vinho com imagens geradas por IA, muito tempo antes dos outdoors de Gemini e ChatGPT chegarem às nossas ruas). Na virada deste ano, me aprofundei no uso destes sistemas para gerar código. A ideia é tentadora: programação para não-programadores! Nestes últimos meses criei dezenas de sistemas experimentais, robustos, fracos, plenamente operantes ou tentadores: análise genômica do meu próprio DNA, algoritmo de mapeamento remoto de áreas de cafezal, uma plataforma de streaming de música voltada apenas ao catálogo da minha gravadora preferida (a ECM). Coisas muito aleatórias, mesmo.

O site da Vinco seria algo fácil, frente aos outros projetos loucos. Foi simples e foi extremamente complexo. Algumas horas depois do pedido do Denis, já tínhamos um site rodando e um configurador 3D para que clientes e arquitetos pudessem configurar estantes. É tipo um SketchUp restrito aos componentes e regras do sistema. O Denis me contava a lógica construtiva da Vinco, e eu incorporava no configurador. As vezes uma idéia nova e complexa era implantada em menos de um minuto, num ritmo de desenvolvimento alucinante!

Para as peças, ao invés de modelar os componentes (ou correr o risco de enviar os desenhos técnicos para a IA interpretar), eu descrevia cada elemento com linguagem natural. Desenhar geometrias a partir de palavras (toma essa disciplina PCC0201 Geometria Descritiva!). O sistema gera automaticamente desenhos esquemáticos em vista oblíqua, em elevação, renders, cálculo de materiais, configurações de melhor aproveitamento. Até o orçamento exato sai na hora — para conquistar ou afastar possíveis clientes. Tudo funciona no celular, mas não recomendo; os dedinhos gordos dos seres humanos não são as melhores ferramentas para montar estantes. Melhor abrir o configurador no computador.

Por trás, o Denis consegue gerir todo o fluxo de orçamentos para clientes e produção para os fornecedores. Testamos com um grupo de conhecidos, e está funcionando bem. Tenho certeza que alguns bugs nos rondam — de software ou do mundo material, de serralheria, pintura e frete. Mas convidamos vocês a conhecerem a marca e testarem esse sistema.

Numa época em que Inteligência Artificial Generativa está semeando o caos e incertezas entre criadores de imagens (universos da arquitetura e fotografia de arquitetura inclusos), essa sua contrapartida sistemática está sendo muito estimulante. Pelo menos para mim.

lojavinco.com.br

A decoração é automática e opcional, baseada no ambiente que o usuário escolheu.
Cálculos automáticos de vãos e colisão.
Vista obliqua exagerada, talvez a função mais complexa de descrever e (não)-programar.
Desenho de instalação
O render IA é automatizado: ele captura a tela do configurador e envia para o Gemini renderizar a partir de parâmetros pré-estabelecidos (contém prompts malandros “luz suave lateral em apartamento modernista em Santa Cecília, fotografado com Kodak Portra 160”).

Pedro Kok, fotografia e arquitetura é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.